UM GRITO!

Escureceu subitamente,
E eu fiquei só.
Estou com medo, mãe,
Muito medo.
Tu sabes como a escuridão me assusta
E o receio que tenho de estar sózinho.
Abraça-me, mãe.
Aperta-me nos teus braços
E afaga-me os cabelos.
Beija-me,
E canta-me uma canção.
Era assim que afastavas o meus sustos de criança
Enquanto o sono não chegava.
Aconchegavas-me a roupa da cama.
Mais um beijo e um sussuro:
“Boa noite, meu amor.
Dorme um soninho descansado.”
Lembras-te?
Claro que lembras.

Como podias esquecer?

Ainda há pouco.
Enquanto o sol descia lentamente no horizonte
A dourar o entardecer,
Me contavas o teu dia.

De repente, ficou escuro,
Muito escuro.

Fiquei só e tive medo.

Mãe,
Não vás, não me deixes aqui sózinho
Com a escuridão à minha volta.
A luz do farol que orientou a minha vida
Apagou-se súbitamente.
Sinto-me perdido.
Chamo-te mas não me respondes.
Estás serena, mas imóvel.
Não me falas, nem me ouves.
Adormeceste.

Aconcheguei-te a roupa
Como sempre me fizeste.
Abracei-te, mas não senti o aperto dos teus braços.
Beijei-te, mas, pela primeira vez, não retribuiste.
Os teus dedos não procuraram os meus cabelos como dantes.
Quis cantar-te uma canção, mas a voz atraiçou-me.
Já dormias. Serenamente.
A mesma serenidade que sempre te acompanhou
Ao longo da tua vida.

Mãe,
Estou assustado e tenho medo.
Sem ti, a criança que me mantive até hoje,
Deixou de fazer sentido. Partiu contigo,
E eu não sei viver sem ela.

10 comentários:

pin gente disse...

deixo-te um forte, forte abraço meu amigo poeta mais alto.
sobre as palavras (lindíssimas) não consigo dizer mais.
luísa

Fa menor disse...

A dor da perda!...
E um grito 'mais alto' que de algum modo a atenua...

(ainda não consigo, como tu, colocar essa dor em palavras...)

Bjins

Eduardo Aleixo disse...

Já tinha lido este tão belo e sentido poema, ontem, no teu blogue, mas não consegui comentar, por motivos técnicos. Diria apenas ao poema: não percas a criança, não. Ela fica contigo. Ela deve ficar sempre conosco. É a parte mais rica de nós... O resto, sim, que parte, somos nós que partimos. Todos partimos. Sejamos crianças sempre neste caminhar terrível, mas belo, que nos cabe viver. Um abraçpo.

Gui disse...

À Luisa, à Fá e ao Eduardo o meu muito obrigado pelas vossas palavras e pelo vosso apoio. Não sei se tinha o direito de invadir este espaço comum com a minha dor, mas senti uma necessidade enorme de gritar o meu medo e a minha perda. Talvez à procura de ajuda. Vocês acorreram a estender-me a vossa mão. Mais uma vez obrigado. Bem hajam.

Eduardo Aleixo disse...

Bem-hajas, Gui: este espaço é o da vida, é o do caminho comum por onde vamos caminhando, embora cada um com o seu destino, mas caminho comum, onde o encontro é de amor, de necessidade, de dádiva solidária, de partilha do essencial: a tua criança sabe e a minha também, ou não fossem o rosto da alma que nos habita.
EA

ausenda disse...

Recebo como eco de dor...o amor que devemos gritar...! Essa partilha é o fraterno abraço das palavras que nos damos!

Abraço a todos os companheiros
e um especial para ti, Gui!

Só Eu (Ricardo) disse...

Um grito que, de certeza, irá ecoar nas lembranças quentes dum regaço com cheiro a mãe.
Chora lagrimas feitas ondas até se transformarem num imenso mar sempre presente (para além das marés...)
Solidarizo-me totalmente com a tua dor. Um fortissimo abraço
Ricardo Silva Reis

Rafael Castellar das Neves disse...

Um grito entalado na garganta, inclusive!! Muito bom isso...mistura diversas situações...e angustia!!

[]s

Manu Almeida disse...

A pior dor, a pior perca... Deus não deveria permitir, se bem que não gostaria de promover em minha mãe a dor de me perder... Olha me saltaram dos olhos gotas de uma água salgada. Sinto Muitíssimo que Deus te proteja e junto com ele estará tua mãe a te acalentar e todas as noites ela cantará pra ti! Gostaria de dizer que te amo na expectativa que isso te deixasse melhor... mas só agora te conheci, então, de nada iria adiantar! Mas por favor, feche os olhos e sinta o abraço de uma desconhecida que realmente deseja te confortar! BJs!

Lídia Borges disse...

Nunca somos adultos o bastante para sabermos pronunciar a ausência de uma Mãe.

Muito belo, este poema!

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